27 de outubro de 2019

O mal é banal: "somos todos Adolf Eichemann"

Quando, em 1933, Adolf  Eichmann passou a fazer parte do Serviço Militar Alemão, será que ele imaginava que, 6 (seis) anos mais tarde haveria uma guerra (II Guerra Mundial) e poderia, no final, ser co-responsável direto pela morte de 437.000 mil pessoas transportadas (deportadas sob suas ordens) da Hungria para, quase sempre, Auschwitz (Sul da Polônia)?  

Imagino que não; mas o fato é que este Senhor, que chegou a Tenente-Coronel pelos "bons serviços prestados" durante a Segunda Guerra Mundial, foi responsável pela deportação de 725.000 mil Judeus Húngaros à Polônia (aos campos de concentração), felizmente, nem todos foram mortos - do número citado neste parágrafo lamentavelmente 437.000 mil acabaram nas câmaras de gás de Auschwitz!

Antes disso, os Judeus Húngaros já haviam sido amontoados em Guetos da Hungría; forçados a saírem de suas casas para viver nesses locais onde só havia pessoas com a mesma nacionalidade ou descendência - independentemente da classe social anterior todos passaram a experimentar as péssimas condições de um gueto vigiado. 

Esta foi a solução* que encontrou Superiores como Heydrich, militar em contato direto com Hitler, juntamente com Eichmann, também militar, fiél à Alemanha Nazista, a serviço da Schutzstafell (SS): Reunir todos os Judeus que encontrasse em um só local para, posteriormente, transportá-los aos campos (mas para convencê-los, sem maiores transtornos, mentiam que seriam deportados à Polônia). 


*Solução final: plano nazi de Genocídio do povo judeu.

Nesses locais faltava água, comida, as condições higiênicas eram precárias e por isso, mesmo antes de imaginarem os campos, onde iriam parar mais tarde, a segregação, com as péssimas condições acabou colocando fim na vida dos mais fracos (certamente alguns idosos e crianças)!


Mas, quem foi esse homem que 'organizou' a partida de todos os Judeus/húngaros em direção a uma morte certa?

A primeira resposta foi dada por Hannah Arendt em seu famoso escrito, que após publicação, em formato de artigo, no Jornal The New Yorker, transformou-se no livro Eichemann em Jerusalém - um relato sobre a banalidade do mal: "apenas um homem banal"; como eu ou você, ou pelo menos como a maioria de nós!

Alguém que obedece ordens e a Lei do momento, sem pensar, sem "pestanejar", sem remorço de que àquilo que irá realizar é o melhor ou o correto a fazer! A conclusão que se tem é: Um funcionário, um servidor exemplar para o que seus superiores necessitassem no momento - além do mais, tudo que fizesse seria um 'plus' na carreira militar; ganhos e condecorações viriam e eram bem quistas!

Para chegar ao julgamento que o condenou à morte foi cassado por longos anos; no final da guerra fugiu para a Áustria e em 1950 para a Argentina, usando documentação falsa. Lá, em um pequeno povoado foi acolhido, trabalhou e seguiu criando a família - um de seus filhos nasceu naquele país, tanto que quando foi descoberto a Argentina negou a entregá-lo. 

Capturado (sequestrado em território Argentino - 1960) pelo serviço secreto Israelense (Mossad), Eichmann foi levado à Israel e alí permaneceu preso até o julgamento em 1961. O Presidente do Julgado citou 15 (quinze) crimes, os principais: DE GUERRA, CONTRA A HUMANIDADE e CONTRA O POVO JUDEU, com isso foi condenado à morte. Sua execução por enforcamento se deu em 1º de junho de 1962.
Adolf Eichmann durante julgamento
Adolf Eichmann em Julgamento Jerusalém

Participante ativa no Julgamento de Eichmann, Hannah Erendt, como estudiosa de Jornalismo Político e apaixonada por Filosofia percebeu o quão banal era àquele homem, que sempre fazia questão de afirmar que não tinha nada contra os judeus, apenas cumpria ordens superiores e a lei do seu país. Em outras palavras: o Tenente-Coronel da SS, Eichmann era apenas "um pau mandado", um palhaço, um fantoche do regime"!

Durante o julgamento não parece o monstro que o mundo queria acreditar - de tão banal, de tão comum, parecia mais um burocrata, mais um administrador que um militar linha dura, ou um militar com características psicopáticas, alguém com capacidade para coordenar, enfileirar, e despachar pessoas sabendo do destino - qual seja? Morte certa!


A banalidade do mal

Com o tempo, a "banalidade do mal", descrita pela primeira vez por Hannah Arendt passou a ser motivo de pesquisa no campo psiquiátrico e psicológico.

Acabaram descobrindo muita coisa acerca do que o ser humano é capaz, sob ordens. A capacidade de obedecer comando superior e não se importar com as consequências, com a dor alheia, com o sofrimento alheio é inacreditável; especialmente quando essa ou essas ordens vêm acompanhadas de algum ganho pessoal ou familiar - que poderia ser dinheiro ou qualquer outra coisa de valor para a pessoa ordenada.

Um desses experimentos foi inspirado justamente no que escreveu Hannah sobre Eichmann durante o julgamento: Experimento de Milgram, foi aplicado pela primeira vez pelo Psicólogo Stanley Milgram, da Universidade de Yale, no ano de 1961.

A finalidade era verificar se a tese de Hannah Erendt estava correta - se as pessoas tendem a obedecer ordens sem questionar.

Para isso Milgram recrutou 40 voluntários (homens) entre 20 e 50 anos que foram apresentados a dois atores que fingiam ser alunos também voluntários.

Esses 40 voluntários, um de cada vez, ficaria em uma cabine fechada, com uma janela de vidro, onde via a 'vítima' de sua obediência levar supostos choques graduais - quanto mais errava a resposta das perguntas, mais recebiam ordens de aumentar o choque - assim era o experimento. 

Enquanto isso, o ator, subjugado, amarado a uma cadeira, falsamente eletrificada levava choques (que começavam em 15 e chegariam a 450 volts); o COMANDO dado ao voluntário poderia ser 'desobedecido', poderia se negar a dar qualquer choque ou a seguir aumentando (a pessoa que recebia a ordem era livre para dizer não, afinal não estava sob ameaça de morte).

Antes da pesquisa previam que apenas 0,1%  dos participantes dariam o choque  - no entanto, todos deram alguns choques no ator que consideravam aluno voluntário - mesmo no final, quando o ator dizia que era cardíaco e poderia morrer com mais choques, 2/3 dos 40* voluntários foram até o fim, quando o voluntário gritava de dor (fingindo), pedia para parar e acabava 'desacordado e babando'.
*Alguns dizem que passaram de 300 voluntários.


Conclusão - Hannah Erendt tinha razão: pessoas comuns, pessoas banais, sem nenhum transtorno narcísico ou psicopático, podem ser algozes, tremendos malfeitores na vida dos demais seres humanos quando são ordenados a cumprir regras que não são tão legais como parecem; é uma triste conclusão a falta de empatia que "nos é nata" - em especial quando envolve alguém de quem não temos apreço em detrimento a quem temos!

*Experimento de aprisionamento de Stanford (Califórnia - EUA) - realizado em 1971 por um grupo de estudos científicos de Psicologia.

O referido estudo consistia em colocar 24 pessoas em um falsa prisão (mas detalhadamente preparada como prisão); todos os volutários eram brancos e maioria estudantes da Universidade que seriam, após as duas semanas de 'cárcere', indenizados com um valor previamente combinado.

Sortearam, dentre esse grupo de 24 pessoas: 12 seriam prisioneiros e 12 seriam guardas prisionais. Imaginam o que aconteceu? De tão forte o tema e a conclusão, que Hollyood transformou em filme, quase considerado de terror! 

Não vou fazer 'spoiller' porque o filme vale muito a pena ver (apesar de perturbador). Mais uma vez a conclusão do estudo foi sinistra: a falta de empatia, a capacidade do ser humano ser mal com o outro, quando tem VOZ de comando (poder), ou é comandado e pode ter regalias com a obediência ou delação é simplesmente doentia.


A seguir um estudo que demonstra como o ser humano é capaz de agir como 'MANADA', ou seja, ter a tendência de fazer parte de grupos e estar em conformidade

Trata-se do estudo realizado por um dos representantes da Psicologia mundial mais aplaudidos - Salomon Asch, este era seu nome, Polonês de Varsóvia batizou seu experimento de "Conformidade social".

Não vou prolongar mais acerca do assunto, apenas deixarei um link de um artigo que publiquei no JusBrasil (há um tempo), onde escrevi sobre o tema, baseando-me em pesquisas acerca do estudo em questão - logo, é algo bem mais complexo que seria aqui; já que o tema deste artigo "apenas" interage com o que acabo de citar - todavia, creio que há muito o que relacionar com os demais experimentos citados anteriormente. 

Sozinhos somos capazes de atitudes atrozes, especialmente se não houver ninguém a nos vigiar (quando fazemos o bem é para "inglês ver" - ficar bem na fita)!  Do mesmo modo, em Conformidade social, melhor dizer - "em MANADA", somos quase invencíveis! Para exemplificar e finalizar: Hitler, com seu diálogo intolerante e de eficaz convencimento, foi capaz de liderar uma grande manada - por isso é sempre bom estarmos vigilantes sobre nossas atitudes e a de quem nos cerca ou governa; nesta hora, vale até um ditado popular: "diga com quem andas, que direi quem és"!

Por Elane F. de Souza (Advogada não atuante), autora deste e dos blogs:

Um canal do Youtube só de DIREITO:

E agora uma rádio:

Fonte que inspiraram o texto: revistagalileu.globo; e três filmes, sendo 1 deles documental com artistas consagrados: O primeiro sobre a ida e participação de Hannah Arendt no julgamento em Jerusalém; outro sobre o experimento da prisão (citado aqui) e o de Milgram (documental/filme) e meu próprio artigo no JusBrasil.

Foto/Créditos: por DW.com assinada pelo real autor

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