10 de outubro de 2018

ABORTO: três mulheres, três histórias

As histórias que passarei a contar aconteceram de verdade; no entanto, os nomes reais e as idades serão preservadas pois, seguramente, nem estas nem a maioria das mulheres são capazes de assumir, publicamente que um dia fizeram aborto - mesmo que o procedimento tenha se passado há muitos anos. 

Grande parte das que um dia realizaram aborto, hoje são contrárias à legalização (é a hipocrisia fazendo sua vez); felizmente, outra parcela da classe feminina (diria, mais moderna, menos moralista) se coaduna com a ideia da legalização. 
Aborto e gravidez
Gravidez por pixabay editado por DCJ Elane Souza
Caso isso venha se tornar realidade algum dia, certeza que menos mulheres morreriam pois, já hoje, quer queiramos quer não, o aborto é realizado e todos os brasileiros são conscientes disso - seja aborto "rústico" e perigoso (feito pela própria gestante ou terceiros, clandestinamente), ou em consultórios médicos, com apoio de profissionais habilitados (neste caso, quando a mulher é "endinheirada", mas, também é de forma clandestina pois não está legalizado).

Assim, o mais sensato seria que aprovassem, de vez, uma lei regulamentando o aborto para qualquer caso. Teria que funcionar mais ou menos assim: qualquer mulher que estiver grávida, até certo período (o período prescrito pelo CRM), tem direito a escolher se quer seguir ou não com a gestação e ter o bebê - se não, poderá passar pelo procedimento do aborto com acompanhamento médico por meio do SUS, ou de forma particular (à sua escolha).

Todavia, ainda não é assim, portanto vamos as histórias que prometi contar acerca do assunto em questão. Três mulheres, três histórias - o que as aproxima mais é o fato de todas elas, um dia, ter praticado aborto.  Vale a pena saber um pouco mais sobre sobre estas jovens senhoras!
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JADE, hoje com 52 anos, vive em união estável e não tem filhos.

DCJ: quantos anos tinha quando ficou grávida e decidiu praticar o aborto?

JADE: "Eu tinha cerca de 20 anos de idade (mas essa foi a primeira vez); não me achava preparada para ser mãe, não tinha estabilidade financeira, nem psicológica - além do mais, vinha de família pobre que sequer conseguiam sustentar os que já existiam - imagine levar um filho para dentro de casa, para minha mãe ajudar a cuidar e sustentar; jamais lhe daria esse desgosto e trabalho!  Foi aí que decidi pelo aborto; sem falar que era de um relacionamento não muito estável, ele era separado, com três filhos pequenos e não estava muito ligado em mim (parecia que queria voltar com a esposa - prova disso é que mais tarde voltou)".

"Foi então que decidimos, os dois, pagar um médico (eu participei apenas com a decisão e o 'corpo' - o dinheiro era dele). Deu tudo certo - não sofri nenhuma sequela.  O médico era um ginecologista/obstetra da cidade; tinha uma clínica normal e atendia os pacientes normalmente - poucas pessoas sabiam que ele fazia isso; no entanto, algum tempo depois foi fechada (nunca soube o porquê; se foi ou não por praticar aborto nas dependências)".

DCJ: você, no início disse que foi a primeira vez; isso significa que houveram outras?

JADE: "sim, mais duas vezes. Infelizmente nem um ano se passou desde a primeira vez e já estava eu grávida novamente de um outro homem (bem mais velho)"

"Trabalhávamos na mesma empresa; no entanto, eu era uma simples recepcionista/secretaria enquanto ele um engenheiro 'de importância' que vivia viajando de cidade em cidade para fiscalizar as grandes obras realizadas pela empresa (a sede era em outro Estado e ele permanecia mais tempo por lá, por isso, só nos víamos quando ele aparecia - e por acaso também era casado)".  

"Ele ficou sabendo que eu estava grávida via telefone; tinha medo que ele demorasse muito para regressar e não tivesse mais jeito; foi aí que resolvi ligar e contar.  Não pareceu muito assustado, até porque eu já disse, em seguida, que não queria ter o filho - estava muito nova e ainda queira curtir a vida, além do mais ele era casado e nós não tínhamos um relacionamento estável o suficiente. Rapidamente enviou-me o dinheiro e eu fiz o procedimento com o mesmo médico de antes - como da outra vez, deu tudo certo".

DCJ: então, e a terceira vez, como aconteceu? Por que, mesmo na terceira vez você ainda decidiu pelo aborto? 

JADE: "tudo se deu muito rápido (tinha uns 22 anos); talvez na época eu fosse uma garota descuidada e imatura (esquecia da pílula de vez em quando e ainda não havia a do dia seguinte); isso, somando ao fato de ser gravidezes de relacionamentos instáveis; fato que me levou, mais uma vez, a não querer o filho". 

"Quando passei a ter relacionamentos mais duradouros eu já era responsável, adulta de cabeça e corpo; não deixei que houvesse mais nenhuma gravidez; além do mais sempre fui uma pessoa que tinha pavor de prejudicar os outros e nesse caso a mim mesma - Apesar de ter tido vários relacionamento de anos, e na época já me sentir preparada, os envolvidos não queriam - então deixei o tempo passar pois, nunca me imaginei dando o 'golpe da barriga'."!

"Mas, em se tratando dessa última gravidez (3ª) ela foi a pior em todos os sentidos.  NÃO QUERIA DE JEITO NENHUM ESSE FILHO; e para piorar era do sujeito mais sem recursos que poderia haver - além de eu mesma já ser; assim, foi bem difícil conseguir dinheiro para o procedimento abortivo; mas, por fim conseguimos juntos e eu fui, mais uma vez, para as mãos de um médico".  

"Nunca tive coragem para tomar medicamentos como algumas meninas conhecidas fizeram (elas usavam um tal remédio para (...) e passavam mal bocados até expulsar o feto). Em procedimentos médicos a gente sofre menos, até porque ficamos sedada. Depois tomamos alguns antibióticos, para não infecionar, e em algum tempo estaremos 'bem'.  Apesar de que, depois desse último nunca mais fiquei tão bem. Mas, mesmo assim não me arrependo - faria tudo de novo se voltasse no tempo".

"Ter filho requer MUITA responsabilidade; só deveria ter quem possuí recursos, tempo para se dedicar e gostar muito de ser pai ou mãe; afinal, a criança não pede para vir ao mundo"!  É por isso que não me arrependo; fiz o que devia ser feito! Hoje não sou responsável pela pobreza, doença e fracasso de ninguém - o infelizmente só vem quando penso que poderia ser, o contrário do que foi dito, a responsável pelo sucesso de alguém - no entanto, nunca saberei, sou mais feliz assim"!
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Mariluce, hoje com 53 anos, está casada e vive muito bem com o marido e um casal de filhos

DCJ: Mariluce, você parece que vive muito bem com a maternidade - o que te fez abortar na juventude?

Mariluce: fiz 2 (dois) abortos, a mesma quantidade de tilhos que tenho hoje, se não tivesse feito era quase certo que tivesse 4 (quatro) maravilhosos filhos!  Os meus dois são uma benção. Educados, estudiosos e lindos (coisa de mãe - ri); a verdade é que todos também afirmam isso!

DCJ: pelo seu tom, parece que se arrepende de não ter tido os filhos que abortou?

Mariluce: certamente! Filhos são um presente de Deus! Logicamente que temos muito trabalho e dedicação com para transformá-los em pessoas de bem, mas são as 'coisinhas' mais preciosas e fofas que alguém poderia ter (só uma mãe ou pai, que ama muito, sabe o que estou a dizer). Isso, quando pequenos; quando adultos, dependendo da educação que foi dada, só nos traz alegria, apesar de deixar a 'fofurice' para traz. Sendo assim devemos aproveitar cada fase deles (somos responsáveis por trazê-los ao mundo).

DCJ: quantos anos tinha quando abortou e por que o fez?

Mariluce: tinha 21 anos de idade, mas me considerava imatura e era muito namoradeira. Naquela época não se tinha tanta consciência de camisinha (mas já existia e muitos usavam; infelizmente a maioria  dos homens preferia não usar e ainda nos seduzia para fazer sem); assim, nós que queríamos namorar e fazer sexo tínhamos que estar sempre preparadas, com a pílula em dia. 

Por esquecimento, ou talvez por a pílula ser de 'farinha' (ela ri) acabávamos engravidando sem querer.  Na verdade, nessa idade não queria nem saber de filhos - só namorar e curtir, assim que soube que estava, corri para fazer o procedimento; como a Jade, eu também era muito pobre; no entanto, meus relacionamentos eram com gente de bastante dinheiro (naquele tempo tinham até a 'máxima' de dizer que os homens preferiam as loiras, e eu era loira).

DCJ: e o segundo aborto, quantos anos tinha? Por que insistiu em abortar?

Mariluce: acredito que uns 23 anos, mas logicamente era muito nova e não era de um relacionamento estável. O homem era casado e tinha sua vida muito bem estabelecida com a família dele (só era um traidor, como tantos - novamente sorri). Ele logicamente aceitou a minha proposta de abortar, na hora, e ainda seguimos com o relacionamento depois. Uma jovem pobre nas mãos de um velho rico, que lhe proporciona tudo (menos vida em comum), era bem fácil de seduzir. Enfim, foi meu último deslize (de aborto). Muitos anos depois me casei e tive dois lindos filhos (um casal que só me dá alegria).

DCJ: parece se sentir arrependida, ou estou enganada?

Mariluce: sim. Foi meu maior erro do passado!  Se pudesse voltar no tempo faria tudo diferente, exceto ter me casado com quem casei!  Mas nunca faria os abortos que fiz e jamais viveria como vivi na juventude. É por isso que sou contra o aborto - e não é falso moralismo, é apenas minha mudança de pensar, meu novo modo de vida. As pessoas mudam, umas para melhor, outras para pior, acredito que pensando assim (sendo contra o aborto), sou uma pessoa melhor!
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Romilda, hoje com 47 anos, está solteira (mas não sozinha), sem filhos e continua bem resolvida assim!

DCJ: Romilda, você fez quantos abortos e por que?

Romilda: fiz 2 (dois) abortos e não me arrependo disso. Hoje faria tudo igual - nunca me senti preparada para ser mãe; na verdade nunca quis ser mãe, esse talvez deva ser o porquê de ter feito; além disso era super jovem, tinha muito a viver.

DCJ: quantos anos tinha quando fez o primeiro?

Romilda: creio que uns 20 anos, já não tenho certeza - isso nem me importa.

DCJ: e o segundo aborto, quantos anos tinha, porque engravidou se tem tanta aversão a maternidade?

Romilda: como já disse, era muito jovem, só queria curtir a vida; todavia, não tinha muita maturidade, exatamente como as minhas amigas relataram! Éramos um trio de amigas inseparáveis. Todas gostavam de namorar e relacionar-se sexualmente com homens, apesar de usarmos pílulas acabamos engravidando. Poucos queriam usar camisinha e a gente ia na onda! Sobre esta última parte me arrependo muito já que, só por muita sorte, não acabamos infectadas com alguma doença sexualmente transmissível e até HIV (ver lei atual sobre prevenção aqui), tudo isso, muito mais 'grave' do que ficar gestante (bom, já nem sei - criar um filho, em um mundo como este, talvez seja tão grave quanto!

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A vida dessas garotas (hoje adultas e resolvidas, financeira e emocionalmente), não é diferente da vida de muitas que há por aí; mas será que estas terão o mesmo destino e final feliz que as nossas entrevistadas tiveram?

Deixamos a interrogação.

Felizmente, hoje, em 2018 já temos projetos nesse sentido (interrupção da gravidez - do Deputado Jean Wyllys de nº 882/2015), entretanto, ainda não foi aprovado e até já anexaram a outros projetos para desvirtuar o que foi criado por ele. Apesar de muita gente acreditar que aprovando seria pior, notamos que em países como (Espanha, Portugal, Inglaterra, Uruguai e por aí vai), que aprovaram o aborto, hoje só diminuiu o número de gravidezes indesejadas,  mortes de gestantes e o número de  intervenções. 

Por trás dos projetos brasileiros que tentam aprovar sempre há políticas públicas de prevenção e uma delas vem exatamente do Deputado a que nos referimos anteriormente. 

Não é simplesmente aprovar e pronto! Além das políticas, deverá haver um estudo psicológico com a gestante para saber dela se o que pretende é realmente a melhor opção para si. Mulheres que buscam pelo aborto geralmente não tem apoio do pai da criaturinha que está se formando em seu ventre, estão desamparadas financeiramente e os eventuais pais que comparecem estão de acordo com a decisão delas; justamente como relatado acima, via nossa entrevista com as três amigas (jovens na década de 80,90).

Por Elane F. Souza (Adv. e blogueira em seus blogs jurídicos e articulista no JusBrasil)...ao copiar, favor obrigatoriamente citar a fonte.

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Imagem/crédito: pixabay editada do DCJ








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