10 de maio de 2016

Transtorno da Personalidade: mau humor crônico e instabilidade emocional; conhece alguém com essas características?

Transtorno da Personalidade mal humor crnico instabilidade emocional Conhece algum com essas caractersticas
A Medicina Legal e a Psiquiatria nos apresenta diversos tipos de transtornos da personalidade, uns mais graves outros menos; desta feita iremos discorrer acerca de um que muita gente nem imagina tratar-se de doença, mas sim, apenas uma forma crônica de mal humor que possuem alguns indivíduos.
Com Certeza, a maioria de nós em algum momento da vida, já se deparou com alguém assim, ou teve o “desprazer” de trabalhar ou conviver com quem sofre de “mal humor crônico”.
No entanto não se trata apenas de “mal humor crônico, ou instabilidade emocional” como alguns querem crer, o nome disso é Distimia, é um transtorno psicológico e portanto uma doença que pode evoluir, inclusive, para uma depressão. Há que se respeitar.
Aqui no nordeste é difícil conhecer alguém que nunca tenha ouvido falar de “Seu Lunga” (o homem mais bruto e ignorante do mundo). Cearense, de Barbalha, falecido em novembro de 2014 aos 87 anos; conhecido, praticamente no Brasil todo, pela “tolerância zero” que tinha para “perguntas e diálogos bestas”, ou “ignorância alheia” como ele mesmo dizia. Personalidades assim, ou fazem parte da vida do indivíduo ou tem a ver com um fundo psicológico mais para o doentio.
A distimia corresponde a uma alteração crônica do humor, mas que não preenche os critérios necessários para ser considerada um quadro depressivo. Os pacientes com distimia apresentam uma alternância entre períodos de depressão e períodos em que se sentem relativamente bem. Na maioria do tempo, entretanto, sentem-se deprimidos, preocupados excessivamente e sobrecarregados; tudo é um esforço, e nada basicamente é desfrutado; apresentam pouca energia e pouca disposição, sentem-se cansados, com mau humor e irritados em graus variáveis; não obstante, são capazes de lidar com as exigências do dia a dia, como as responsabilidades domésticas e profissionais, mas sofrem uma queda na qualidade de vida.
Os estudos científicos demonstram que a distimia aumenta consideravelmente o risco de depressão. Uma pesquisa realizada por Akisal mostrou que 90% dos pacientes com distimia evoluem para um episódio de depressão maior. A maioria destes pacientes sequer sabe que está doente e que poderia ganhar qualidade de vida se estivesse em tratamento.

Entrevista realizada por Drázio Varela com um especialista no assunto

Drauzio – Além do comportamento explosivo, que outros sintomas caracterizam o quadro de distimia?
Taki Cordas – Na distimia, não é tanto o comportamento explosivo que chama a atenção. É a irritabilidade. No entanto, quando se avalia o paciente pela primeira vez, é difícil diferenciar distimia de depressão. Embora seja uma depressão mais leve, ela deixa o indivíduo predominantemente mais triste, desanimado, sem vontade de agir. Às vezes, dependendo do nível cultural, torna-se pedante, acha que nada está bom nem é original, não vê nada de novo sobre a face da Terra que mereça sua atenção. São pessoas que passam a maior parte do tempo irritadas, mal humoradas.
Diferentemente da depressão, cujos sintomas são evidentes – hoje estou bem, batendo papo de maneira natural e tranquila, mas amanhã você me encontra na cama, pensando em morrer, tomado por pensamentos negativos e não resta a menor sombra de dúvida de que estou deprimido.
A distimia não tem essa marca de ruptura. Desde a infância ou adolescência, os distímicos são considerados pela família (primeiro pelos pais e pelos irmãos e depois pelo cônjuge quando se casam) desagradáveis, pessoas de difícil relacionamento. No emprego, chegam irritados, de cara amarrada, e os colegas os definem como resmungões e pouco sociáveis.
Embora façam o trabalho corretamente, não são muito criativos, porque criatividade tem a ver com bom humor, com capacidade de abstrair e o mal humorado dificilmente está aberto para o novo, para o desconhecido.

DIAGNÓSTICO

Drauzio – A distimia está sempre relacionada com a depressão?
Táki Cordas – Pode-se dizer que a distimia é uma depressão crônica, de moderada intensidade. Para estabelecer o diagnóstico é preciso que pelo menos durante dois anos a pessoa esteja apresentando os sintomas. Se seguirmos a história dos distímicos, veremos que, de tempos em tempos, eles fazem episódios de depressão grave e depois voltam a um patamar considerado normal para eles, mas seu humor está sempre um piso abaixo do humor das pessoas que têm a capacidade de viver normalmente.

FAIXA DE IDADE

Drauzio – Em que idade costuma instalar-se esse tipo de transtorno?
Táki Cordás– Em geral, instala-se na infância ou na adolescência, mais comumente na adolescência, mas pode manifestar-se também no idoso. No entanto, nessa faixa de idade, a maioria dos pacientes diz – “No colegial eu tinha muitos amigos, era bem humorado, minha família me achava brincalhão. Depois, comecei a ficar introvertido, quietão, a não achar graça nas coisas, a me irritar com tudo”. Essas lembranças são prova de que o problema já tinha se manifestado bem antes, na adolescência.
Drauzio – Aqueles velhos ranzinzas e mal humorados, que reclamam de tudo, agem assim porque são portadores de distimia?
Táki Cordás – Os portadores de distimia são indivíduos casmurros, que estão sempre reclamando. É preciso, no entanto, olhar o caso com atenção (e isso é uma questão quase acadêmica) para diferenciar a distimia da depressão. O fundamental é não considerar esse tipo de comportamento como próprio da terceira idade. Idosos casmurros e irritados, mal humorados e queixosos, devem ser investigados para saber se esse estado de ânimo não é sinal de algum transtorno psiquiátrico.

PROCURA DE AJUDA

Drauzio – Imagino que seja difícil para essas pessoas procurarem o médico porque, de uma forma ou outra, foram assim durante a vida inteira. O que pode levá-las a procurar ajuda?
Táki Cordás – Quando a Organização Mundial de Saúde patrocinou um programa a respeito de distimia no qual trabalhei aqui no Brasil, houve divulgação do assunto na imprensa e algumas famílias nos procuraram porque identificaram os sintomas num de seus membros. Lembro de uma mulher que apresentou o esposo nos seguintes termos: “Olhe, os filhos e os amigos acham meu marido um chato. Eu mesma, que estou casada há trinta anos, tem horas que não aguento. Está sempre reclamando, nada para ele vale a pena. Muitas vezes, abusa do álcool para aliviar a tensão”.
Geralmente, as pessoas não procuram ajuda porque acham que são assim mesmo, que aquele é o seu jeito. Mas, quando começam a ser tratadas, ocorrem mudanças extraordinárias. Dois ou três meses de uso da medicação, voltam sorridentes para a consulta, sentindo-se mais leves e mais tranquilas.
Drauzio – A distimia é mais comum nos homens ou nas mulheres?
Táki Cordás – É mais comum nas mulheres, mas não tanto quanto a depressão clássica. Há três casos de depressão em mulher para um caso em homens. Na distimia, são duas, duas e meia mulheres com o transtorno para cada homem.

DISTIMIA E SUICÍDIO

Drauzio – A vida das pessoas distímicas pode transformar-se num verdadeiro inferno. Imagine passar o dia inteiro irritado e descontente com tudo. Qual é a relação entre distimia e suicídio?
Táki Cordás – A relação entre distimia e suicídio é estreita e perigosa. Por isso, o fato de provocar depressão menos intensa, porém mais prolongada, não significa que seja mais leve. Imagine qual é a sensação do indivíduo que vai somando só perdas ao longo da vida. Talvez isso explique por que 15%, 20% dos pacientes com distimia tentem suicídio.
Drauzio – Mas é um número muito alto!
Táki Cordás – Muito alto mesmo. A situação é mais grave ainda na infância e adolescência. Sabe-se que 90% das crianças e adolescentes que tentam ou cometem suicídio são portadoras de alguma doença psiquiátrica, em geral, esquizofrenia, depressão, distimia, dependência de drogas. Nos casos de distimia, tudo começa com a irritação e mal-estar que não conseguem controlar.
Antigamente, algumas pessoas acreditavam que adolescente não tinha depressão, porque o ego não estava completamente formado nem a personalidade. Hoje, está provado que crianças e adolescentes têm depressão, têm distimia. Às vezes, é difícil caracterizar o transtorno porque o paciente não relata todos os comemorativos. É preciso chegar ao problema por outros sintomas, como irritabilidade, baixo rendimento escolar, etc.

POSSÍVEIS CAUSAS

Drauzio – Existe alguma alteração cerebral, alguma modificação de neurotransmissores descrita para esse tipo de distúrbio?
Táki Cordás – Pacientes com distimia, quando submetidos à polissonografia (exame para avaliar o tempo e a qualidade do sono), apresentam o mesmo padrão de sono que os pacientes com depressão. Os dados obtidos revelam que a fase REM dos movimentos oculares e do sonho aparece antes dos 70 minutos.
Além disso, se analisarmos as famílias dos distímicos, encontraremos um número grande de pessoas com depressão (pai, primos, tios, etc.) o que indica a influência da carga genética. Alguns testes de estimulação hormonal mostram esse mesmo perfil depressivo. Felizmente, essas pessoas respondem muito bem ao tratamento com antidepressivos e, como por milagre, ficam boas.
Drauzio – A psicoterapia tem bom resultado quando realizada sem o tratamento medicamentoso?
Táki Cordás – Eu diria que, nos quadros orgânicos seja de distimia, depressão ou pânico, sem o tratamento medicamentoso, a psicoterapia é má prática. Não funciona para os casos crônicos. Na verdade, coloca o indivíduo em mobilização emocional, física e econômica inútil. Por quê? Porque todas as linhas psicoterápicas passam a mensagem de que cada um é responsável por sua vida, por escrever a sua história. Não adianta dizer que o outro é culpado pelo inferno que estamos vivendo. Somos responsáveis por nossas escolhas. No entanto, se a doença é biológica, ninguém consegue planejar o futuro, nem raciocinar, nem controlar o mau humor, nem ser responsável por sua história.
Na verdade, isoladamente, a psicoterapia acaba cobrando um desempenho, uma performance inatingível para esses pacientes que têm uma limitação orgânica que os impede de mudar. Por isso, eu me permitiria afirmar que determinados tipos de psicoterapia podem ser deletérios, prejudiciais sem o tratamento medicamentoso.
Drauzio – Por quanto tempo deve ser mantido o tratamento medicamentoso?
Táki Cordás – Cada vez mais, o psiquiatra pensa no tratamento das doenças psiquiátricas em geral e não só da distimia, pânico, depressão e transtorno obsessivo-compulsivo como o clínico pensa no tratamento do diabetes e da hipertensão, ou seja, num tratamento para a vida toda. Claro que depois de um ano, um ano e meio, tentamos reduzir a medicação para ver como o indivíduo se mantém, mas o índice de recaída é altíssimo. Via de regra, grande parte dos pacientes tem recaída e não se pode permitir que ela se repita uma, duas, três vezes. Atualmente, os trabalhos mostram depressão – e estou colocando a distimia dentro das depressões – como doença degenerativa que compromete a capacidade intelectiva do indivíduo, o que justifica a manutenção ininterrupta do tratamento.(Publicado em 09/01/2012)
Autoria/Comentários: Elane F. De Souza OAB-CE 27.340-B
Foto/Créditos: slideplayer. Com. Br

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